Quando chegamos a uma obra e o dono da casa nos pergunta se dá para pôr a cerâmica nova por cima da velha, sem picar nada, a resposta honesta é: às vezes dá, e é uma boa ideia; outras vezes é asneira e vai dar problema em menos de um ano. O que decide não é a vontade de poupar, é o estado do piso que já lá está. Neste artigo explicamos como olhamos para uma base antes de decidir, o que faz um trabalho durar e o que faz um trabalho abrir.
Porque é que assentar por cima é tentador
Picar um pavimento antigo é a parte suja e cara de uma remodelação. Enche a casa de pó, produz entulho que alguém tem de carregar e transportar, e quase sempre arranca também a camada de regularização por baixo, o que obriga a refazer tudo até à laje. Assentar por cima do revestimento existente, aquilo a que se chama over-tiling, salta essa fase. Poupa dias de trabalho, poupa a fatura do contentor de entulho e deixa a casa habitável durante mais tempo. Feito com critério, é uma solução legítima e usada há muito, tanto em pavimento como em parede.
O problema é que a técnica só funciona se a base for de confiança. E é aqui que separamos os trabalhos que aguentam dos que não aguentam.
A primeira verificação: a base está bem colada?
Antes de qualquer coisa, batemos o piso todo. Passamos peça a peça com o cabo de uma ferramenta ou com um objeto duro e ouvimos o som. Uma peça bem colada responde com um som cheio, maciço. Uma peça descolada responde oco, como se estivesse vazia por baixo, porque está: perdeu a aderência à base. Essa é a verificação que mais decide o resultado.
A regra que seguimos é simples. Se aparecem peças ocas espalhadas, ou se ao passar a mão sentimos degraus entre azulejos, ou se há peças estaladas e cantos levantados, a base não serve para receber revestimento por cima. Assentar cerâmica nova sobre uma peça que já está solta é construir sobre areia: o peso novo acaba de a soltar e, quando ela vem, arrasta a nossa. As referências técnicas da fileira apontam para o mesmo critério prático, que só se assenta por cima quando o piso existente está praticamente todo firme, sem som oco e sem peças partidas.
Peças ocas pontuais podem-se resolver. Levantamos essas, recolamos ou preenchemos, e deixamos a base uniforme. Mas quando o oco é generalizado, não vale a pena insistir: aí o correto é picar e começar do início. Dizemos isto ao cliente mesmo quando não é o que ele queria ouvir, porque o barato de hoje é o caro de amanhã.
Humidade, planeza e as outras condições da base
Além da aderência, olhamos para mais três coisas. A primeira é a humidade. Se o piso antigo tem problemas de humidade a subir, manchas, cheiro, rejunte sempre húmido, tapar por cima não resolve nada; empurra o problema para debaixo do revestimento novo e mais tarde ele volta a aparecer, muitas vezes pior. Nesse caso há que tratar a origem primeiro.
A segunda é a planeza. O piso existente tem de estar razoavelmente direito. A boa prática de referência admite desvios pequenos, da ordem de mais ou menos três milímetros medidos com uma régua de dois metros. Acima disso, ou corrigimos com uma camada de regularização adequada, ou a base não está pronta. Desníveis grandes, barrigas e caimentos marcados não desaparecem por baixo de cerâmica: transferem-se para o revestimento novo.
A terceira é a limpeza. Um piso antigo tem gordura, restos de cera, produtos de limpeza acumulados, poeira. Nada disso deixa a cola agarrar. Lavamos e desengorduramos a fundo antes de tocar em primário ou cola.
O primário de aderência muda tudo
Aqui está o ponto que muita gente ignora e que faz toda a diferença. Um azulejo ou mosaico velho é uma superfície lisa e não absorvente, quer dizer, não bebe a água da cola como bebe um reboco ou uma betonilha. Se assentarmos cola diretamente sobre o vidrado, ela agarra mal, por muito boa que seja.
A solução é aplicar antes um primário promotor de aderência, formulado precisamente para bases lisas e pouco absorventes. Produtos como o Eco Prim Grip Plus da Mapei destinam-se a melhorar a aderência de colas cerâmicas sobre pavimentos em cerâmica, ladrilho hidráulico e pedra natural, e criam uma película rugosa a que a cola se pode fixar. Aplica-se a rolo, seca depressa e deixa a superfície com textura de lixa. Só depois assentamos. Saltar este passo é a causa número um de trabalhos de over-tiling que soam ocos passados uns meses.
Quanto à cola, usamos uma cola deformável indicada para suportes não absorventes e para assentar cerâmica sobre cerâmica, dentro das colas classificadas pela norma europeia de referência para adesivos, a EN 12004. Uma cola comum de saco não é a mesma coisa: sobre vidrado, precisa de ser uma cola pensada para o efeito. E aplicamo-la nas duas faces quando o caso o exige, base e tardoz da peça, para garantir contacto total sem vazios.
O problema que ninguém pensa a tempo: as portas e as cotas
Este é o senão prático do over-tiling e o motivo por que às vezes desaconselhamos mesmo tendo a base boa. Assentar por cima acrescenta altura ao piso. Entre primário, cola e a peça nova, o pavimento sobe facilmente um centímetro ou mais. Parece pouco, mas muda a casa toda.
As portas deixam de fechar porque roçam no chão, e passam a precisar de ser cortadas em baixo ou reajustadas. As soleiras e os remates com outras divisões deixam de estar à mesma cota, criando degraus onde antes havia continuidade. A entrada da casa pode ficar mais alta que o patamar. Onde há um pavimento diferente ao lado, madeira, outro mosaico, cria-se um desnível que é preciso resolver com uma soleira ou um perfil de transição. Nada disto é impossível, mas tem de ser pensado antes de começar, não descoberto no fim. Quando chegamos a uma obra assim, medimos logo a folga por baixo das portas e as cotas de todas as passagens, para o cliente saber ao que vai. É frequente ser este ponto, e não a base, a decidir que afinal compensa picar.
Quando é boa ideia e quando é asneira
Resumindo o que dizemos a quem nos pergunta. Assentar por cima faz sentido quando a base está firme e praticamente toda bem colada, sem humidade ativa, razoavelmente plana, e quando há folga nas portas e nas cotas para absorver a altura extra. Nessas condições, poupa-se demolição, pó e entulho sem perder durabilidade.
Não se deve fazer quando há peças ocas generalizadas, cantos levantados ou peças partidas; quando há humidade por resolver; quando o piso está muito desnivelado; ou quando a subida de cota estraga portas, soleiras e ligações a outras divisões sem solução prática. Nesses casos, picar não é desperdício, é o caminho certo.
Falámos disto porque é a nossa vida há quarenta anos
Somos ladrilhadores de família em Argoncilhe, Santa Maria da Feira, a assentar cerâmica, porcelânico, pedra natural e mármore desde 1985, dentro e fora de casa, e trabalhamos em todo o país. Não vendemos o material nem fazemos a remodelação completa: assentamos o revestimento, bem assente, e dizemos com honestidade quando vale a pena pôr por cima e quando é melhor picar. Se está com esta dúvida em casa sua, ligue-nos pelo 963 084 931 ou escreva para geral@manuelcorreiaefilhos.pt e vamos ver a base consigo antes de decidir.
