Quase toda a gente já o fez: passa-se no corredor, bate-se com o calcanhar ou com os nós dos dedos numa peça e ela responde com um som diferente das outras, mais cavo, como se houvesse ar por baixo. Muitas vezes há mesmo. Uma peça que soa a oco não está obrigatoriamente a descolar, mas está a dizer que não ficou toda apoiada na cola. Saber ler esse sinal poupa muito dinheiro, porque há casos em que basta vigiar e casos em que remendar só adia o problema.

O que o som quer dizer

Uma peça bem assente fica colada em toda a área do tardoz. Quando se bate, o som é seco e igual ao das vizinhas. O som cavo aparece quando por baixo da peça há uma zona sem contacto com a cola, seja um canto, uma faixa ao longo de um bordo ou, nos piores casos, a peça quase inteira.

É por isso que nós próprios usamos este teste. A dissertação de João Bento na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, sobre patologias em revestimentos cerâmicos colados, descreve-o como parte da boa execução: na altura de betumar as juntas, percutir as peças com um objeto que não as danifique e retirar e voltar a assentar as que emitam som cavo. O manual técnico de colagem de cerâmicos da Secil manda fazer o mesmo ensaio de percussão antes de se colar cerâmica nova sobre cerâmica antiga, e remover as peças instáveis.

Onde falha a ligação

Entre a peça e a parede ou o chão há três camadas e duas fronteiras: a peça, a cola e o suporte. A mesma dissertação da FEUP resume as causas por sítio onde a ligação parte:

  • Entre a peça e a cola, que é o caso mais frequente: cola aplicada depois de passado o seu tempo aberto, ou cola que não é adequada para a porosidade da peça.
  • Entre a cola e o suporte: suporte com pó, demasiado quente ou seco no momento da aplicação, ou cola inadequada para a absorção desse suporte.
  • Dentro da própria cola: o revestimento foi posto em uso antes de a cola ter ganho resistência.
  • Dentro do suporte: um reboco ou uma betonilha sem coesão, que se desfaz por baixo de uma cola bem aplicada.

Quando se levanta uma peça oca, olhar para o tardoz diz-nos quase sempre qual foi. Se a cola ficou toda agarrada ao chão com os sulcos da talocha intactos e o tardoz da peça está limpo, a peça foi pousada sobre cola que já tinha feito pele. Se a cola veio agarrada à peça com pó do suporte, o problema estava por baixo.

O tempo aberto, que não se vê

A cola espalhada no chão começa logo a secar à superfície. Passado um certo tempo forma uma película, e a peça pousada por cima já não agarra como devia. A norma europeia das colas para cerâmica, a EN 12004-1, mede isto como tempo aberto: uma cola normal tem de manter uma aderência mínima de 0,5 N/mm² quando a peça é colocada 20 minutos depois de espalhada, e uma cola de tempo aberto prolongado, a classe E, aos 30 minutos.

São valores de laboratório, a 20 °C e sem vento. Numa obra com corrente de ar ou um suporte que bebe água, o tempo real é mais curto. A ficha da SikaCeram-252 StarFlex manda confirmar, antes de colocar cada peça, que a cola ainda não formou película superficial, e a Secil diz que o fim do tempo aberto se reconhece por um filme de tonalidade diferente na superfície da cola. A regra prática que daqui resulta é simples: espalha-se cola só na área que se consegue cobrir a seguir. Quem estende cola no compartimento inteiro para ir mais depressa está a fabricar peças ocas.

Colagem simples, colagem dupla e colagem por pontos

A outra grande causa é a peça nunca ter tido cola em toda a área. A dissertação da FEUP é taxativa: a colagem dupla, com cola no suporte e no tardoz da peça, é vantajosa em todas as situações e obrigatória nas peças de baixa absorção, como o grés porcelânico. E a colagem por pontos, aqueles montinhos de cola nos cantos e no meio que ainda se veem em obras antigas, é absolutamente interdita. A ficha da Sika pede colagem dupla em peças acima de 900 cm², e a Secil lembra que a cola nunca se aplica em porções isoladas, nem no suporte nem no tardoz.

Uma peça colada por pontos soa a oco desde o primeiro dia. Pode aguentar anos numa parede de casa de banho, mas num pavimento parte quando lhe cai um peso em cima de um vazio, e num exterior enche-se de água e gelo.

Porque é que tantos casos aparecem no início do inverno

Há um caso descrito nessa dissertação que conhecemos bem: um revestimento de parede interior, numa alvenaria de tijolo muito antiga, que empolou de repente no mês de dezembro. A parede, com grande inércia térmica, contraiu-se de forma brusca com o arrefecimento, as juntas entre peças eram demasiado estreitas para absorver o movimento e a cola transmitiu as tensões às peças, que levantaram. A reparação passou por remover a zona, refazer a base de assentamento e voltar a assentar com juntas de 6 mm.

O princípio vale para pavimentos e para exteriores. Com o frio, o suporte e a cerâmica mexem de maneira diferente, e se não há juntas entre peças com largura suficiente, nem juntas de dilatação nos sítios certos, as peças empurram-se umas às outras até uma ceder. A Secil indica juntas entre peças de pelo menos 2 mm no interior e 5 mm no exterior. Explicámos noutro artigo onde se fazem as juntas de dilatação e porquê.

O inverno também pesa na própria aplicação. A Sika indica temperaturas de aplicação entre 5 °C e 35 °C e manda proteger a cola fresca da chuva e da geada, e a Secil não aplica abaixo dos 5 °C. Num exterior assente numa tarde fria de novembro, a cola pode não chegar a fazer presa como devia antes de a noite descer abaixo desse valor.

Uma peça oca ou uma zona a levantar

A FEUP faz uma distinção que usamos para decidir o que fazer. Os descolamentos localizados estão em geral ligados a falhas locais de aplicação ou do suporte: uma peça, duas, uma zona de remate. Os generalizados, com ou sem empolamento, apontam para expansão das peças, cola de má qualidade ou inadequada, erros repetidos de aplicação ou incompatibilidade entre camadas. São problemas diferentes e pedem respostas diferentes.

  • Uma ou duas peças ocas, sem fissura, num pavimento interior e sem tendência a aumentar: vigia-se. Muitas vezes ficam assim anos.
  • Uma peça oca que fissurou, mexe quando se pisa ou tem a junta à volta a esfarelar: tira-se, limpa-se a cola velha do suporte e do tardoz, e assenta-se outra vez com colagem completa. Se houver peças de reserva do mesmo lote, ótimo.
  • Várias peças seguidas ocas, peças a levantar em tenda ou som cavo que se vai espalhando: não se remenda. Levanta-se a zona até onde as peças estão firmes e percebe-se a causa antes de voltar a assentar. Se o suporte está fraco ou faltam juntas, assentar peças novas sobre o mesmo erro dá o mesmo resultado no inverno seguinte.

Em paredes e fachadas a urgência é outra. Uma peça que cai de uma parede interior parte-se; uma que cai de uma fachada pode magoar alguém.

Antes de assentar por cima

Há ainda um caso em que o teste do som é obrigatório: quando se quer assentar cerâmica nova por cima da antiga. Se a cerâmica de baixo tem peças ocas, a nova vai descolar com elas. Antes de aceitar esse trabalho, percutimos o pavimento todo e retiramos o que soa a oco. Falámos disso no artigo sobre assentar cerâmica sobre o piso existente sem picar, e da escolha da cola em que cimento cola escolher.

A Manuel Correia, Ferreira e Filhos assenta cerâmica, porcelânico e pedra natural desde 1985, a partir de Argoncilhe, Santa Maria da Feira, em todo o país. Se tem peças a soar a oco ou a levantar, vemos o que está por baixo antes de propor seja o que for: 963 084 931 ou geral@manuelcorreiaefilhos.pt.