Numa escada não há onde esconder um erro. Num pavimento, um milímetro a mais numa peça perde-se no conjunto; numa escada, repete-se degrau a degrau e no fim do lanço está uma diferença que o pé sente antes de o olho ver. É o trabalho mais exigente que fazemos, e é onde se nota logo quem mediu antes de começar e quem foi assentando.

A conta que se faz antes de cortar a primeira peça

Uma escada é uma sucessão de alturas iguais. O corpo humano aprende a altura do primeiro degrau nos primeiros dois ou três e depois conta com ela. Quando um degrau tem um centímetro a mais ou a menos, tropeça-se, e não é descuido de quem passa: é o corpo a ser contrariado.

Por isso a primeira coisa é medir a altura total do lanço, do piso acabado de baixo ao piso acabado de cima, e dividi-la pelo número de degraus. Acabado quer dizer com o revestimento já contado, não com a betonilha à vista. Quem mede sobre o tosco e assenta depois acaba com o último degrau diferente de todos os outros, porque o revestimento do patamar comeu o que faltava.

Há uma regra de dimensionamento que se usa para verificar se o conjunto é confortável: duas vezes a altura do degrau mais a profundidade do pisa deve dar perto de 64 centímetros. Não é lei, é a regra de Blondel, e dá sempre o mesmo resultado prático, uma escada onde se sobe sem pensar.

Lei há, e é mais antiga do que parece. O Regulamento Geral das Edificações Urbanas fixa, para escadas de habitação coletiva, um cobertor mínimo de 0,25 metros e uma altura máxima de degrau de 0,193 metros, com exigências mais apertadas em edifícios de três a cinco pisos sem elevador. Numa moradia estas medidas não são impostas da mesma forma, mas servem de referência: uma escada com degraus de 20 centímetros de altura é desconfortável, legal ou não.

O nariz do degrau é onde tudo se decide

O remate da aresta do degrau, o nariz, é a peça que se vê de frente quando se sobe e a que leva todo o desgaste. Há três maneiras de o resolver e não são equivalentes:

  • Peça de nariz própria, feita para o efeito, com a aresta boleada e já com relevo antiderrapante. É a solução mais limpa e a mais resistente ao choque.
  • Peça cortada e esquadriada a 45 graus, com o pisa e o espelho a encontrarem-se na aresta. Fica elegante, mas a aresta resultante é fina e lasca com uma pancada. Exige corte perfeito e boa cola na aresta.
  • Perfil metálico de remate, em alumínio ou inox. Resolve o desgaste, mas vê-se, e numa casa de habitação a maioria das pessoas não gosta do resultado.

O que não se faz é deixar a aresta viva do porcelânico à mostra sem remate. Dura pouco e corta.

Antiderrapante: a parte que ninguém pede e todos precisam

Uma escada é o sítio da casa onde uma queda tem mais consequências, e a maioria das pessoas escolhe o material pelo aspeto do mostruário, onde está seco e à altura dos olhos. A resistência ao escorregamento mede-se em classes, e o que interessa saber é simples:

  • Escada interior, seca, aceita um acabamento mais liso, mas nunca polido no pisa. Polido numa escada é um erro que se paga uma vez.
  • Escada exterior, ou de entrada onde entra água, pede material com relevo e classe de antiderrapante adequada, mais inclinação mínima para a água correr para fora e não ficar na aresta.
  • Casas com pessoas idosas ou crianças, relevo no pisa, mesmo no interior. Vale mais do que qualquer outra decisão estética da escada.

Onde é que as escadas correm mal

Pela ordem com que as encontramos:

  • Degraus com alturas diferentes, porque se mediu sem contar o revestimento ou porque a estrutura já vinha irregular e ninguém a regularizou antes.
  • Peças ocas, que soam a vazio quando se bate. Resultam de cola aplicada em pontos em vez de penteada em toda a superfície. Numa escada a peça oca estala com o uso, porque leva a carga de um pé inteiro numa pisada.
  • Narizes lascados ao primeiro mês, de aresta cortada a 45 graus sem cola suficiente por baixo.
  • Juntas desalinhadas de lanço para lanço, que se vê de imediato quando se olha a escada de baixo para cima. Evita-se definindo o alinhamento à partida, de cima a baixo, e não degrau a degrau.
  • Falta de junta de dilatação no encontro com as paredes, sobretudo em escadas exteriores. O material trabalha e, sem onde folgar, levanta.

A ordem de trabalhos que evita refazer

Primeiro verificar e regularizar a estrutura, degrau a degrau, com a altura final já decidida. Depois assentar os espelhos, as faces verticais, e só no fim os pisas, para que a peça horizontal remate sobre a vertical e a aresta fique apoiada. Assentar ao contrário obriga a ajustes forçados em cada degrau.

Rejuntar depois da cura, nunca no mesmo dia, e com a largura de junta decidida antes, não ao critério do momento. Numa escada as juntas estão à vista de quem sobe: duas larguras diferentes vêem-se mais do que num pavimento inteiro.

Por fim, proteger. Uma escada acabada é passagem obrigatória para o resto da obra. Se não for protegida, leva tudo o que o resto da obra deixar cair, e a aresta do nariz é a primeira a sofrer.

Quanto tempo leva

Um lanço corrente de treze a quinze degraus, com material em obra e estrutura em condições, é trabalho de dois a três dias, mais a cura antes de rejuntar e antes de dar passagem. Quando a estrutura vem irregular e é preciso regularizar primeiro, acrescenta um dia. O que não se compensa é cortar no tempo de cura: é o único atalho de uma escada que se vê sempre, mais tarde, em peças ocas e narizes lascados.