A cerâmica é dos melhores revestimentos que se pode pôr sobre pavimento radiante: conduz bem o calor e não se importa com ele. O problema nunca é o material. É assentá-lo como se o chão fosse um chão normal, e descobrir dois invernos depois que há fissuras finas a desenhar os tubos no pavimento.

Porque é que o radiante muda tudo

Um pavimento frio é estável. Um pavimento radiante aquece e arrefece todos os dias, durante meses, e com ele a betonilha dilata e contrai. A cerâmica por cima faz o mesmo, mas não na mesma proporção nem ao mesmo ritmo, porque os dois materiais não têm o mesmo coeficiente de dilatação.

Essa diferença tem de ir para algum lado. Se houver folga desenhada na obra, vai para as juntas e ninguém dá por nada. Se não houver, vai para o ponto mais fraco: a ligação entre a cola e a peça, ou a própria peça. É assim que aparecem o som a oco junto às paredes e as fissuras alinhadas com a tubagem.

O sistema tem de ter sido ligado antes de assentarmos

Isto é a primeira pergunta que fazemos quando chegamos a uma obra com radiante, e é a que mais vezes apanha o dono da obra de surpresa: a betonilha tem de ter secado e o sistema tem de ter feito o seu arranque, com subida e descida controlada de temperatura, antes de se assentar o revestimento.

Não damos aqui um número de dias porque não existe um número universal. Depende do tipo de betonilha, da espessura, do sistema instalado e das condições da obra, e quem o define é o fabricante da betonilha e o do sistema, no respetivo caderno de encargos. O que é sempre verdade é o contrário: assentar sobre um sistema que nunca foi posto a trabalhar é assentar sobre uma betonilha que ainda vai mexer.

Pedimos sempre o registo desse arranque. Quando não existe, dizemo-lo por escrito antes de começar.

A cola não pode ser a mesma

Uma cola cimentícia corrente é rígida: transmite à peça tudo o que a base fizer. Em radiante usa-se argamassa-cola melhorada e deformável, a que traz a classificação de deformabilidade. É essa deformação, de décimos de milímetro, que absorve o movimento diário em vez de o passar para a cerâmica.

Em peças de grande formato acrescenta-se a dupla colagem, para não ficar ar debaixo da peça. Uma zona oca sobre um pavimento que aquece é o sítio onde a peça vai partir primeiro.

As juntas que não se podem fechar

  • A junta perimetral, em todo o contorno da divisão. Nunca se enche de argamassa nem de cola, e o rodapé não encosta ao pavimento. É a folga que permite ao pano inteiro crescer uns milímetros sem empurrar contra as paredes.
  • As juntas de fracionamento, em panos grandes e sempre que a geometria muda: passagens de porta, mudanças de divisão, zonas com e sem radiante. Têm de coincidir com as juntas que já existem na betonilha, não se inventam noutro sítio.

É a parte que mais vezes se corta no orçamento por parecer invisível. É exatamente a que não se pode cortar.

A espessura sobre os tubos

A norma europeia que trata destes sistemas, a série EN 1264, fixa na parte da instalação um recobrimento mínimo da betonilha acima da tubagem. Quando esse recobrimento não é respeitado, a zona por cima do tubo aquece mais e trabalha mais do que a zona entre tubos, e o resultado lê-se no pavimento: fissuras paralelas, à distância certa umas das outras.

Quando a betonilha não é nossa, medimos antes de assentar. É uma verificação de minutos e evita uma discussão de anos sobre de quem foi a culpa.

A temperatura a que o sistema vai trabalhar

Os valores de projeto correntes para temperatura de superfície andam à volta dos 29 graus nas zonas de estar, com limites mais altos em casas de banho e zonas de passagem. Quem define isto é o projeto da instalação, não o ladrilhador. Mas vale a pena saber: um sistema regulado acima do que o revestimento e a cola suportam acaba por se ver no chão, e nessa altura já ninguém liga uma coisa à outra.

O que pedimos antes de começar

  • A ficha do sistema instalado e a do fabricante da betonilha.
  • A data em que a betonilha foi feita e o registo do arranque do aquecimento.
  • Onde estão as juntas da betonilha, para as acompanharmos com as nossas.
  • Confirmação de que a cola prevista no orçamento é deformável.

Quando algum destes pontos falta, não recusamos a obra. Dizemos o que falta, por escrito, e o dono da obra decide com a informação à frente. É mais barato do que levantar um pavimento.