As peças de grande formato entraram em força nas casas: os 60x120, os 120x120 e até as chapas enormes que fazem uma parede inteira quase sem juntas. Ficam bem, dão um ar amplo e limpo a qualquer divisão, e é natural que o cliente as queira. O que quase ninguém sabe é que são, de longe, as peças mais difíceis de assentar como deve ser. E o que decide se ficam perfeitas ou se dão problema não é a peça em si, é aquilo que fica escondido por baixo dela: a planeza da base e a forma como a cola é aplicada. Uma peça grande sobre uma base torta ou mal colada não perdoa, e o estrago aparece meses depois, quando já ninguém liga a obra ao problema.
Porque é que o grande formato é mais exigente que a peça pequena
Com uma peça de 30x30 ou 30x60, uma pequena ondulação na base quase não se nota. A peça é pequena, acomoda-se, e um desnível de um ou dois milímetros perde-se ao longo do chão sem dar nas vistas. Com uma peça de 120 centímetros de lado é o contrário: quanto maior a peça, mais implacável ela é a denunciar qualquer defeito da base. Uma peça grande é rígida, não se molda ao terreno. Se a base tem uma barriga ou uma cova, a peça fica a tocar só nos pontos altos e cria vazios por baixo do resto. E onde há vazio, há peça a abanar, a soar a oco e, com o tempo, a partir por baixo do pé de alguém.
Há ainda o problema do desencontro entre peças, aquilo a que se chama o ressalto ou o lippage: quando o canto de uma peça fica mais alto que a do lado, formando um degrau que se sente com o pé descalço e se vê contra a luz. Numa peça pequena isto quase não acontece; numa peça comprida, basta a base não estar plana para uma ponta subir e a outra descer. Por isso é que o grande formato obriga a um nível de preparação que a peça pequena tolera saltar.
A base plana: onde a obra se ganha ou se perde
Antes de assentar uma única peça grande, o trabalho verdadeiro é deixar a base plana. Não basta estar limpa e firme, tem de estar plana, e isso mede-se. A regra que seguimos, alinhada com a boa prática, é a régua de dois metros: encosta-se uma régua direita de dois metros ao chão e o desvio entre a régua e a base não deve passar os poucos milímetros. Para grande formato somos ainda mais apertados do que para peça corrente, porque, como se disse, a peça grande não esconde nada.
Quando a base não está dentro destes valores, corrige-se antes, e corrige-se a sério: com uma argamassa autonivelante que espalha sozinha e assenta plana, ou com uma betonilha refeita onde o desnível é grande. O que não se faz, e é aqui que muita obra se estraga, é tentar acertar o desnível à conta da cola, pondo mais cola debaixo das zonas baixas. A cola não é para nivelar. Aplica-se numa camada regular, e uma camada de cola cheia de altos e baixos para compensar a base seca de forma desigual, cria tensões e deixa a peça mal apoiada. A base corrige-se com produto de nivelar, a cola só cola.
A dupla colagem: cola dos dois lados, e não é opcional
Aqui está o ponto que mais se salta e que mais problemas dá. Numa peça pequena, espalha-se a cola no chão com a talocha dentada, assenta-se a peça e está feito. Numa peça de grande formato isso não chega. É preciso fazer dupla colagem, ou seja, aplicar cola nos dois lados: no suporte e também nas costas da peça, no tardoz. A razão é simples de perceber. Quando se espalha a cola só no chão, ela fica com sulcos, uns cheios e outros vazios, e a peça grande não consegue esmagar esses sulcos todos por igual. Ficam bolsas de ar por baixo, vazios onde a peça não está apoiada.
Passar uma camada fina de cola também no tardoz da peça, e assentar em seguida sobre a cola do chão, faz com que as duas camadas se fechem uma na outra e preencham o espaço todo. O objetivo é chegar a um apoio quase completo por baixo da peça, sem vazios. Numa peça grande, num pavimento com muito trânsito ou no exterior, isto não é um cuidado extra, é obrigatório. Uma peça grande assente só com cola no chão fica cheia de ocos, e cada oco é um sítio onde ela vai partir quando alguém a pisar com força, ou onde a água se aloja e, lá fora, congela e levanta a peça.
A talocha certa e a cola certa
Para a cola preencher bem, a talocha dentada tem de ser a adequada ao tamanho da peça. Peça grande pede dente grande, para deixar cordão de cola suficiente. E a cola tem de ser à altura: em grande formato usamos sempre cola melhorada, do tipo C2 pela norma EN 12004, e em muitos casos deformável, da classe S1, porque a peça grande trabalha com as variações de temperatura e a cola tem de acompanhar esse movimento sem soltar. Já escrevemos sobre o que querem dizer estas letras no saco, mas o resumo para o grande formato é este: cola fraca por baixo de uma peça grande é dinheiro deitado fora, porque a peça acaba por descolar.
Os niveladores: a ajuda que garante a peça à face
Para evitar o tal ressalto entre peças, usam-se os niveladores, umas peças de plástico que se colocam nas juntas e que forçam duas peças vizinhas a ficarem exatamente à mesma altura enquanto a cola seca. Apertam as peças à face umas das outras e só se retiram no dia seguinte, quando a cola já agarrou. Num grande formato, os niveladores não são um luxo, são o que garante que não fica um degrau entre peças que se sente a andar descalço. Não substituem uma base plana, atenção: se a base está torta, os niveladores puxam de um lado e fazem a peça bascular do outro. Trabalham em conjunto, primeiro a base plana, depois os niveladores a afinar o pormenor.
Os erros que deixam uma peça grande a dar problema
Quando um grande formato corre mal, é quase sempre por uma destas razões, e todas se evitam antes de assentar:
- Assentar sobre base torta. É a causa número um. A peça fica a tocar nos pontos altos, cria vazios e parte ou abana. Nenhuma cola nem nenhum nivelador salva uma base que não foi nivelada primeiro.
- Saltar a dupla colagem. Cola só no chão numa peça grande deixa sempre ocos. Ouve-se logo a soar a oco quando se bate, e é questão de tempo até partir.
- Cola a mais para compensar desníveis. Encher de cola onde a base é baixa não nivela nada, cria uma camada irregular que seca mal e trabalha contra a peça.
- Junta seca ou junta a menos. A peça grande dilata como qualquer cerâmica e precisa de junta para respirar. Assentar quase sem junta, à procura do efeito contínuo, é convidar o revestimento a empolar no primeiro verão quente.
- Andar por cima cedo demais. Uma peça grande precisa que a cola cure bem antes de levar peso. Pisar no dia seguinte, antes do tempo, desfaz o trabalho todo.
Porque é que isto importa para quem paga a obra
O cliente escolhe a peça grande pelo aspeto, e faz bem, porque o resultado é bonito. O que interessa perceber é que a beleza do grande formato depende toda de trabalho que não se vê depois: a base bem nivelada e a cola aplicada dos dois lados. É aí que se gasta o tempo e é aí que se decide se, daqui a uns anos, o chão continua impecável ou começa a soar a oco e a abanar. Uma peça grande mal assente não dá sinal no dia da obra, dá meses depois, e nessa altura corrigir obriga a levantar peças caras e a refazer a base por baixo. Quando assentamos grande formato, a preparação da base e a dupla colagem fazem parte do trabalho, não são um extra que se cobra à parte nem um passo que se salta para ir mais depressa. Para orçamento ou esclarecimento sobre um revestimento de grande formato, fale connosco pelo 963 084 931 ou em manuelcorreiaefilhos.pt.
